A morte

Um corpo estendido, no chão, num qualquer hotel barato, utilizado para meros contactos fisícos entre duas pessoas que procuram o prazer desalmado que o universo nos deu a liberdade de sentir.
Um corpo gelado, presente mas ausente, roxo, um corpo que se vê mas que para mais nada serve.
Um vulto sentado na poltrona, sem cara, sem forma nem corpo, um vulto escuro, esvoaçante. Olha o corpo inerte no chão, sobre a mancha de sangue escuro que o cobre.
Nada naquele corpo se ousa mecher, os músculos que horas antes tinham sido usados, o cabelo, que tería estado despenteado, estava agora húmido, ensopado na mesma mancha escura, e um vestido branco, até aos joelhos, rasgado e manchado. E os olhos, abertos, frios e vazios, fitam o infinito finito do teto branco
O vulto, agora de pé, em frente ao corpo, ajoelha-se e beija os lábios frios daquele corpo. Beija os lábios levando consigo a sua vida, deixando o corpo. Afasta-se deste, flutuando sobre o seu vulto, abre a porta e sai.
A morte sai, deixando o corpo morto, que agora fica sem alma. O vulto evapora-se, esperando a próxima vitíma.

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